Olá! Meu nome é Sandro Bueno, sou brasileiro e atualmente estou viajando pela Europa juntamente com minha gaita de foles e flautas tocando pelas ruas, me conectando com outros músicos e trocando culturas musicais.

Atualmente estou no Porto, em Portugal e ficarei aqui por um mês. Cheguei há pouco mais de uma semana da Noruega e já carrego um pouco de novas músicas para o meu repertório para flauta e gaita, músicas estas que me foram apresentadas através dos músicos que encontrei pelo caminho. Minha ideia inicial era a de tocar sempre pelas ruas, mas na Noruega a prática não condisse à expectativa. Como fui ainda no inverno pra lá, tocar na rua se tornou impossível – primeiro porque a temperatura era congelante e segundo porque na rua não havia ninguém – esqueci meu plano inicial e toquei somente em lugares fechados.

Acho interessante quando há similaridades entre as diferentes linguagens musicais, mesmo que estas estejam tão longe culturalmente e geograficamente falando. Em quase todos os meus dias na Noruega fiquei hospedado na península de Hurum, ao sul de Oslo. Uma das primeiras músicas que aprendi foi a Finnskogspols que tem como ritmo base o 3+3+2, idêntico à música do nordeste brasileiro e muitas outras culturas musicais. Inicialmente toquei na flauta e coube bem mas obviamente a minha intenção é a de tocar na gaita sempre que der. Para isso preciso fazer algumas adaptações. Em algumas peças o resultado final da adaptação não me agrada muito e deixo só para ser tocada na flauta mesmo.

Quem me apresentou essa canção foi o Asthor Gripsrud. Asthor é de Oslo, toca violão e hardanger  – o violino norueguês

– que em especial possui cordas a mais que ressoam enquanto a melodia é tocada, isso faz com que se crie uma espécie de bordão, como o da gaita de fole. Aproveitando a frase rítmica sugeri emendar com Asa Branca de Luiz Gonzaga, por ser uma melodia fácil e na maioria das vezes uso o exemplo dessa música com estrangeiros que querem conhecer um pouco da cultura musical brasileira, eu escapo um pouco dos temas de samba ou bossa nova, até porque Luiz Gonzaga e gaita de fole já possuem uma conversa mais próxima.

Folketone fra Sunnmøre, esse é o nome da segunda melodia norueguesa que aprendi, mas me contive em tocá-la somente na flauta e não fazer adaptações (por enquanto), e como em alguns estilos de música tradicional, algumas ornamentações não estão escritas na partitura mas é algo que todo músico que toca o estilo sabe bem o que se tem de fazer, e uma dessas ornamentações que aprendi está no final da frase musical, o que me lembrou algo da ornamentação da gaita de fole escocesa.

No final de minha estadia no país fui convidado a tocar na igreja luterana da cidade de Holmsbu, a Holmsbu Kirke, que existe desde 1887 e para a minha surpresa fui acompanhado por um organista, a combinação não poderia ter sido mais perfeita. Para tocar na gaita de foles escolhi três hinos tradicionais conhecidos pelas igrejas luteranas e protestantes tradicionais de forma geral que são: Amazing Grace, I Surrender All e Ein Feste Burg.

No meio da cerimônia ouço uma melodia bastante especial em tom menor e obviamente já me interessei em aprender, pedi ao organista que me mostrasse a partitura e perguntei se eu poderia fotografá-la, então ele me cedeu o livro e eis que faço uma adaptação para a gaita.

Minha viagem ainda continuará, e nesse trajeto com certeza encontrarei mais músicos que possam compartilhar canções tradicionais e espero eu que sejam perfeitas à gaita. Até!